Fonte dos Lamentos

Fonte dos Lamentos

Naquele momento de infinitude pude sentir a mortalidade dos segundos, tão efêmero e intenso… E então, num piscar de olhos, você se foi e me deixou só. Mas a luz verde que eram os seus olhos permaneceu, e ali, numa âncora perfeita, me prendi de volta à minha existência terrena, desta vez vivendo e não apenas existindo…

A chuva caía delicadamente; constante, mas gentil. Sentado naquele banco de madeira do parque observei a paisagem melancólica da tarde. A chuva lavava lentamente o cinza do olhar e o cinza da minha vista enquanto preguiçosos raios de sol conseguiam vencer as densas nuvens de chuva e iluminar o efeito cristalino das gotas nas árvores. O gotejar era incessante e parecia querer me embalar a um sono profundo, mas eu sabia muito bem que apenas pesadelos me aguardavam.

Tudo parecia tão bonito, tão calmo, tão relaxante.

Mas não é.

Minha mente estava agitada e aquela voz ao fundo repetia o mesmo discurso há anos. Eu quase podia sentir a sua respiração gélida em minha nuca toda vez que ela falava.

Lembre-se.

Não havia beleza, ou pelo menos eu não a enxergava mais.

Levantei-me e pus-me a andar, não havia rumo, nunca houve. Andei e brinquei distraidamente com a água das folhas até ouvir um som – parecia um lamento. Curioso, pus-me a procurar entre as árvores e a chuva pareceu ficar mais forte enquanto o som ficava cada vez mais abafado. Fiquei cada vez mais intrigado, era como se algo me instigasse, um dever, uma obrigação de encontrar a fonte; repentinamente senti uma mistura de inquietação e súbita aflição e passei a procurar freneticamente.

Ali.

            Por fim, cheguei a uma clareira bastante afastada da trilha, havia uma magnífica árvore no centro ao qual não reconheci de imediato. Minha atenção estava voltada à figura sentada entre as suas raízes.

Uma moça.

Ela era a fonte dos lamentos, tão verdade que uma poderosa angústia dominou meu ser, a mesma angústia nostálgica de uma presença ausente, de algo que deveria estar mas não estava, o Caos dentro da Ordem. Ah! Que tolice a minha: em um mundo naturalmente quebrado tentar questionar os erros da existência

Enquanto me repreendia ela percebeu a minha presença, seus lamentos cessaram instantaneamente assim como a chuva e ela levantou o olhar. Deuses! Aquelas íris pareciam devastar o mundo pela simples intensidade de ser. Por um átimo de segundo senti paz e nem mesmo aquele sussurro gélido podia ser ouvido.

Uma última lágrima rebelde escapou daqueles olhos cintilantes, percorrendo aquela pele macia, brincou no contorno gentil daqueles belos lábios e se perdeu na curva daquele queixo delicado. A mulher se ajeitou e sentou de maneira receptiva com um sorriso educado enquanto me lançava um olhar indagativo e cauteloso. Aproximei-me e sem pensar falei:

Estava procurando você.

– E eu estava te esperando. Por que demorou tanto?

Tive problemas no caminho.

– E como chegou aqui? – A conversa fluía naturalmente e eu respondi verdadeiramente:

– Cometendo erros.

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

– Algo me incomoda.

O quê?

– Outro dia vi um pássaro. No primeiro momento não vi nada de especial, mas ele saltava ao meu redor. Ele queria atenção. Então vi o sangue. Pingava de um toco onde deveria estar sua pata… Ele voou para longe.

A dor que ele sentia, foi isso que te incomodou?

Ela procurou o meu olhar, deliberadamente. Eu o desviei, intencionalmente. Senti seu desconforto e de repente aquele lindo campo onde estavam pareceu mais frio e pálido. Observei a curva suave de seu pescoço e a respiração controlada, a brisa inexistente que antecede a tormenta. O desfecho estava próximo, ambos sentíamos embora o incômodo não sugerisse isso. Era como a desarmonia numa corda desgastada, a pulsação fora do tempo de um coração falho, o fraquejar do mundo… Era tudo tão inevitável e inexorável.

            Fale, – incentivei.

            – Os eventos imploram para serem notados. Quando uma ínfima parte do Universo dá atenção, tal evento é esquecido ou perdido na mesma rapidez que se nota. É tão passageiro que temo estabelecer os níveis de comparação com o estado atual da criação. É a natureza da Ordem e do Caos? Tão… Inevitável e inexorável…

                – Na verdade, o que me incomoda é a apatia.

            Seu olhar foi firme, mas não havia foco.

Diálogo/Monólogo

Diálogo/Monólogo

 

Esperei o mundo parar de chover

sentei e observei a água escorrer

mas o sal que essa água levava

estava em doces faces fadadas

ao sal do esforço

ao sal da exaustão

ao sal da dor

ao sal da solidão.

 

 

E quando vi que não haveria fim

sentei e observei um triste motim

da derrota do orgulho das cores

e a vitória do cinza infeliz

o cinza da cidade

o cinza do céu

um cinza da vida

um cinza na vista.

 

 

Deitado, encolhido, largado ao fado

sobrevivo de doces palavras amargas

pois respiram, comem e dormem; é um fato

mas de nada me servem se continuam caladas

as palavras sentidas

são palavras gritadas

é a palavra existir

é a palavra finir.

 

Agora

Agora

Permita-se sentir alguma coisa. Meus olhos fitavam as luzes que passavam pela janela enquanto meu corpo descansava graciosamente no banco. Imóvel. Silencioso. Rígido.

Apenas uma lembrança. Havia uma urgência naquela voz.

Um arrependimento. Senti um solavanco, mas continuei impassível.

Uma saudade, um vazio dominava o brilho dos meus olhos. Por favor, sinta!

Uma alegria.

Uma Dor. O impacto deste último apelo foi visivelmente sutil, quase senti meus olhos entrando em foco. Entretanto, a lágrima que escorreu timidamente deixou um caminho perceptível levando o pouco brilho que aparecera neles.

– Eu não quero – minha resposta foi fraca, mas no fundo sabia que não conseguia sentir nada. A voz na minha mente insistiu:

Não pode viver eternamente no Vazio, não pode esconder para sempre a sua Dor. O vazio que existia na minha cabeça era maculado apenas por essa voz.

– Não preciso de alívio.

A dor da perda…

– EU NÃO QUERO!

A explosão veio acompanhada de imagens rápidas e sucessivas como um caleidoscópio: uma mulher de olhos verdes; a chuva; olhos verdes perdendo o brilho de reconhecimento…

As pessoas ao redor olharam assustadas quando gritei. Mas a Dor era imperativa, a dor da perda de um amor, a dor de saber que ela jamais saberá o que aconteceu, a dor de saber que era culpa minha. Lágrimas rolaram furiosamente em um choro sereno e silencioso. Depois de um tempo o choro parou e a dor se foi.

Mais uma vez fitei as luzes.

Um vento frio fez as pessoas ao seu redor estremecerem, mas nada sentiu, sabia a origem e o motivo. Havia um vazio nos meus olhos. Havia um vazio na minha mente. Havia um vazio no meu coração.

JUNTOS

JUNTOS

I – Os ventos e o tempo

Aquelas memórias

que juntos construímos

se foram com os ventos

em um porto de lamentos

onde juntos gritamos

promessas ao vento

de se perder no tempo

onde juntos caímos

chorando os tormentos

de ter vidas fadadas

onde juntos morreremos.

II – As dores e as sombras

Todas aquelas dores

que juntos causamos

se foram com os beijos

e voltaram com as flores

que juntos esmagamos

pois deitamos nas sombras

de uma criatura uivante

onde juntos sussurramos

esperanças e sonhos

mas só tivemos sonhos

de onde juntos morreremos.

Ventos do tempo, dores nas sombras.

 

 

I

Memórias construídas com ventos

Lamentos gritados ao vento

Tempos caídos em tormentos

E fadados, juntos morreremos.

 

II

Dores causadas por beijos

Flores esmagadas nas sombras

Uivos sussurrados em sonhos

Pesadelos onde juntos viveremos.

 

 

Prelúdio

Prelúdio

A primeira vez que a vi foi como um resplandecente desfraldar de asas de uma fênix. Por um momento, os pingos de chuva pairaram no ar como se fossem atraídos para aquele intenso olhar verde. Olhos verdes. Aquela magnífica íris destacava-se como uma folha brilhante em uma floresta de cinzas, ao passo de que parecia possuir a intensidade gravitacional de uma estrela.

Aquela pequena eternidade me fez pensar que meu propósito havia sido concluído. Sentir aquela intensidade verde me fez perceber como o mundo ao redor é cinzento. Como um farol de luz verde em meio às brumas.

Uma pequena parcela de mim queria tocá-la, outra queria que aquele momento estendesse indeterminadamente. A verdade é que o meu âmago abraçaria a morte de bom grado, ver seu rosto era uma ótima conclusão, afinal. No entanto, os deuses sabem o quanto tentei. O Caos viu o quanto lutei, assim como a Ordem. No fim, Destino conseguiu me capturar.

Se eu soubesse o que iria acontecer…

***

O céu era umas da poucas coisas que conseguia manter minha atenção. Aquela profusão de cores e luzes é fantástica. Ainda tenho dúvidas em definir qual era o mais belo: o esplendor do alvorecer em meio ao distante calor das estrelas, ou o derradeiro suspiro luminoso do crepúsculo. Ambos, entretanto, conseguiam imprimir matizes de cor nas nuvens, e era a beleza da mistura que mais me encantava.

Era como sentir diferentes texturas e gostos, algo só poderia ser captado pela fluidez de uma pulsação. Tão diáfano calor que se resumia a um órgão que trabalhava incessantemente para manter uma energia tão efêmera.

Assim eu resumia tudo: a existência efêmera de nossas vidas que busca notar a rotina infinita na mutabilidade da luz. Alcançar aquela centelha de luz era um objetivo que eu tinha em mente, e tal qual o coração, eu mantinha esse objetivo na tentativa de adiar o momento no qual a chama se apagaria, o momento que eu tinha certeza de que tudo é efêmero.

Ainda assim, só me sentia completo quando chovia. Era como se aquelas águas pudessem lavar toda sujeira e poeira da vida, avivando as cores e deixando-as translúcidas, iridescendo à medida que todas aquelas gotas escorriam pelas diversas superfícies. Eu quase podia acreditar que o mundo à minha volta não era desbotado, cinzento.

Gotas suaves que escorriam pela aquela face. Um farol verde em meio às brumas cinzentas me observava. Os cabelos ondulados colados no rosto dela escreviam augúrios com o sorriso malévolo do Destino…

Mais uma vez divago sem ter certeza se estou no passado ou futuro. Existir é tão mesquinho, às vezes.

Como pude perder tudo tão facilmente?