Julgamento

Julgamento

Tempo sempre pareceu confuso para mim. Não consigo recordar o que aconteceu depois do nosso breve encontro, mas a sensação de familiaridade persistia. Era como se nós já tivéssemos tido o mesmo diálogo centenas de vezes, ainda assim, continuo sem saber quem ela é e porque sinto uma dor ao relembrar seus olhos. Tenho certeza de que a desejo da mesma maneira que não por acaso proferi palavras impensadas.

Cometendo erros.

Como é possível uma simples frase despertar um frenesi de lembranças? Fragmentos de uma história esquecida que me parece tão irreal e inverossímil quanto a ligação entre mim e ela, no entanto, sei que existe. Talvez eu tenha finalmente sucumbido à insanidade, desta forma, o sofrimento poderá ser aliviado.

***

Não havia palavras que pudessem descrever o espaço onde estávamos, podíamos sentir a frieza da Escuridão ao mesmo tempo em que as explosões estelares reduziam os astros em poeira e gases incandescentes.

Por que estávamos ali? Lembro apenas do brilho incandescente, do convite sussurrado, das preces feitas e das promessas veladas.

Vazio.

Um espaço em branco entre os fragmentos.

Um sussurro:

Ah, querido…

Eu estava lá por esse sussurro. Eu olhei sua forma, esplendorosa e devastadora como uma Fênix deveria ser, toda a glória da Chama encolhida, acorrentada e submissa diante dos implacáveis juízes. Eu também deveria estar sendo julgado, afinal era o nosso plano, deveriam ser as nossas consequências. O ser ao meu lado se remexeu com incômodo, parecia saber o que eu estava pensando e murmurou para que somente eu ouvisse:

– Não desdenhe deste sacrifício, se você não está lá é porque assim foi escolhido. Talvez não queira que você partilhe a condenação.

Não parecia o certo. Ele exalava medo, sempre fora o mais prudente de nós três e, ainda assim, foi de fundamental importância para o nosso plano. Certamente, não gostaria de receber uma sentença. Alguns de nós jamais haviam sido nomeados, isso ocorria no momento de nossa Criação ou após um evento particularmente importante definido por nossas ações ou reações, o que estava ao meu lado era um desses não nomeados. Um pensamento sombrio me ocorreu e tratei de tentar esquecê-lo.

O que nós fizemos foi terrível.

Quantas mortes causamos?

Quantas Lembranças apagamos?

Nós perturbamos o Equilíbrio e lá estavam eles, altivos e majestosos na forma do Caos e da Ordem, uma Força tão poderosa que alterava o ambiente ao seu redor, de certo, regiam várias outras forças dentro da nossa Existência. Entretanto, o ser mais chamativo era o terceiro juiz, aquele que presidia o ritual, o mais prejudicado pelos nossos atos, a linha escarlate que unia a Vida e a Morte. Destino lançou-me um olhar frio enquanto enunciava as acusações:

Conspiração de Poder; alteração de forças; destruição de Lembranças; erradicação da essência de um Eterno. Só há uma sentença capaz de equilibrar estes atos, você sabe qual.

O desespero tomou conta de mim e isto, de certa maneira, soava irônico. Mas eu sabia o que isso significava, Destino iria clamar a Destruição e eu jamais poderia permitir isto. Reagi, claramente atraindo a atenção dos Eternos ali presentes e estava pronto para interferir no Julgamento, apenas uma palavra fora proferida por Destino e foi o suficiente para me fazer hesitar.

– Queda.

Aquilo me pegou de surpresa a meio caminho dos Juízes. Destino me lançou um olhar significativo e indagou:

– Discorda da sentença?

Uma retórica simples, não haveria discordâncias e sua posição hierárquica concedia isso. Eu tive o vislumbre de uma armadilha sendo formada ao nosso redor. Destino não costumava demonstrar compaixão, de maneira alguma Queda seria uma sentença agradável ou aceitável, no entanto era leve demais considerando quais acusações foram feitas.

Ela ergueu a cabeça, nossos olhos se encontraram e tudo o que vi era resignação.

– Não interfira, está quase no fim. – Havia um brilho diferente nos seus olhos, uma cor suave brincava ao redor daquelas íris que carregavam as Luzes mais devastadoras. Uma nuance esverdeada. Outro pensamento sombrio me incomodou.

– A Chama está certa, Sombra. Retorne ao seu lugar próximo do sem nome. – Um desagradável sorriso de escárnio acompanhou aquelas palavras, misturado ao desconforto da dúvida. Destino jamais se interessara por qualquer ser abaixo de sua posição, sequer dava ao trabalho de conhecer seus nomes. Retornei ao meu lugar

Um som grave preencheu meus pensamentos, uma espécie de alerta, um chamado de atenção. Eu conseguia ver claramente toda a situação.

Um toque de Ordem.

Eu olhei a forma do Caos e da Ordem e eles me olharam de volta. Lembrei-me daqueles sussurros proferidos ao Abismo e como ele parecem ser respondidos, da sensação de observar e ser observado de volta. Forças estavam atuando, movendo palavras, certamente chamando a atenção do Escritor. Talvez Destino tivesse seus próprios planos, eu teria os meus.

Um toque de Caos.

Naquele momento soube o que deveria fazer. Quais erros cometer, quais forças provocar, qual Abismo escolher. Destino não poderia alterar isso e ambos, Caos e Ordem, sabiam. O acordo, no entanto, seria perigoso e irrevogável, mas jamais deixaria nossa Existência sob o controle total do Destino. Decidi depositar toda minha esperança no Equilíbrio. Naquele momento percebi que já estava Caindo. Seria apenas mais uma deliciosa agonia.

A Queda

A Queda

Nada se movia.

Não havia som.

Não havia luz.

Mas eu senti a minha mortalidade e isso me assombrou. Afinal, como eu poderia definhar?

Sentado à beira do Abismo vi uma imensidão de gases flamejantes e aglomerados densos, ali eu senti o medo pela primeira vez. Não me orgulho disso, mas eu tentei fugir e somente as luzes me entenderam…

No fim, de nada adiantou, pois foi a bela luz daquela estrela que me prendeu, e foi a sua morte que me fez cair. Pouco a pouco, a Queda foi me cegando, e os meus olhos que uma vez já carregaram a Sombra mais negra foram clareando até que, cego, cheguei ao fundo do Abismo. Meus olhos agora eram cinza. Ouvia a gargalhada distante do Destino como uma vibração maligna em minha cabeça, senti minhas memórias se fragmentando enquanto uma forma vermelha se espalhava sobre elas.

Derrotado, me deitei no Tempo e adormeci ao vento guardando um lamento sussurrado ao Momento.

***

Gentilmente toquei seus lábios, eram macios e convidativos. Estava chovendo e as gotas escorriam pelos seus cabelos, percorriam sua face, emolduravam seus belos olhos verdes. Aqueles cabelos ondulados ardiam numa cor escarlate e contrastavam com a pele pálida.

Cometi erros para chegar aqui.

Lembro-me de ter ficado deitado naquela praia onde Caí. O céu estava escarlate, o solo arenoso era tão branco e macio e as ondas eram de um místico azul esverdeado. Minha cabeça doía e um sussurro parecia crescer entre minhas lembranças. Dor. Meu Fardo. Meu presente do Fado. Tempo sempre pareceu confuso para mim.

 

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Desenho feito por João Luís de Lima Carvalho

Fonte dos Lamentos

Fonte dos Lamentos

Naquele momento de infinitude pude sentir a mortalidade dos segundos, tão efêmero e intenso… E então, num piscar de olhos, você se foi e me deixou só. Mas a luz verde que eram os seus olhos permaneceu, e ali, numa âncora perfeita, me prendi de volta à minha existência terrena, desta vez vivendo e não apenas existindo…

A chuva caía delicadamente; constante, mas gentil. Sentado naquele banco de madeira do parque observei a paisagem melancólica da tarde. A chuva lavava lentamente o cinza do olhar e o cinza da minha vista enquanto preguiçosos raios de sol conseguiam vencer as densas nuvens de chuva e iluminar o efeito cristalino das gotas nas árvores. O gotejar era incessante e parecia querer me embalar a um sono profundo, mas eu sabia muito bem que apenas pesadelos me aguardavam.

Tudo parecia tão bonito, tão calmo, tão relaxante.

Mas não é.

Minha mente estava agitada e aquela voz ao fundo repetia o mesmo discurso há anos. Eu quase podia sentir a sua respiração gélida em minha nuca toda vez que ela falava.

Lembre-se.

Não havia beleza, ou pelo menos eu não a enxergava mais.

Levantei-me e pus-me a andar, não havia rumo, nunca houve. Andei e brinquei distraidamente com a água das folhas até ouvir um som – parecia um lamento. Curioso, pus-me a procurar entre as árvores e a chuva pareceu ficar mais forte enquanto o som ficava cada vez mais abafado. Fiquei cada vez mais intrigado, era como se algo me instigasse, um dever, uma obrigação de encontrar a fonte; repentinamente senti uma mistura de inquietação e súbita aflição e passei a procurar freneticamente.

Ali.

            Por fim, cheguei a uma clareira bastante afastada da trilha, havia uma magnífica árvore no centro ao qual não reconheci de imediato. Minha atenção estava voltada à figura sentada entre as suas raízes.

Uma moça.

Ela era a fonte dos lamentos, tão verdade que uma poderosa angústia dominou meu ser, a mesma angústia nostálgica de uma presença ausente, de algo que deveria estar mas não estava, o Caos dentro da Ordem. Ah! Que tolice a minha: em um mundo naturalmente quebrado tentar questionar os erros da existência

Enquanto me repreendia ela percebeu a minha presença, seus lamentos cessaram instantaneamente assim como a chuva e ela levantou o olhar. Deuses! Aquelas íris pareciam devastar o mundo pela simples intensidade de ser. Por um átimo de segundo senti paz e nem mesmo aquele sussurro gélido podia ser ouvido.

Uma última lágrima rebelde escapou daqueles olhos cintilantes, percorrendo aquela pele macia, brincou no contorno gentil daqueles belos lábios e se perdeu na curva daquele queixo delicado. A mulher se ajeitou e sentou de maneira receptiva com um sorriso educado enquanto me lançava um olhar indagativo e cauteloso. Aproximei-me e sem pensar falei:

Estava procurando você.

– E eu estava te esperando. Por que demorou tanto?

Tive problemas no caminho.

– E como chegou aqui? – A conversa fluía naturalmente e eu respondi verdadeiramente:

– Cometendo erros.

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

– Algo me incomoda.

O quê?

– Outro dia vi um pássaro. No primeiro momento não vi nada de especial, mas ele saltava ao meu redor. Ele queria atenção. Então vi o sangue. Pingava de um toco onde deveria estar sua pata… Ele voou para longe.

A dor que ele sentia, foi isso que te incomodou?

Ela procurou o meu olhar, deliberadamente. Eu o desviei, intencionalmente. Senti seu desconforto e de repente aquele lindo campo onde estavam pareceu mais frio e pálido. Observei a curva suave de seu pescoço e a respiração controlada, a brisa inexistente que antecede a tormenta. O desfecho estava próximo, ambos sentíamos embora o incômodo não sugerisse isso. Era como a desarmonia numa corda desgastada, a pulsação fora do tempo de um coração falho, o fraquejar do mundo… Era tudo tão inevitável e inexorável.

            Fale, – incentivei.

            – Os eventos imploram para serem notados. Quando uma ínfima parte do Universo dá atenção, tal evento é esquecido ou perdido na mesma rapidez que se nota. É tão passageiro que temo estabelecer os níveis de comparação com o estado atual da criação. É a natureza da Ordem e do Caos? Tão… Inevitável e inexorável…

                – Na verdade, o que me incomoda é a apatia.

            Seu olhar foi firme, mas não havia foco.

Agora

Agora

Permita-se sentir alguma coisa. Meus olhos fitavam as luzes que passavam pela janela enquanto meu corpo descansava graciosamente no banco. Imóvel. Silencioso. Rígido.

Apenas uma lembrança. Havia uma urgência naquela voz.

Um arrependimento. Senti um solavanco, mas continuei impassível.

Uma saudade, um vazio dominava o brilho dos meus olhos. Por favor, sinta!

Uma alegria.

Uma Dor. O impacto deste último apelo foi visivelmente sutil, quase senti meus olhos entrando em foco. Entretanto, a lágrima que escorreu timidamente deixou um caminho perceptível levando o pouco brilho que aparecera neles.

– Eu não quero – minha resposta foi fraca, mas no fundo sabia que não conseguia sentir nada. A voz na minha mente insistiu:

Não pode viver eternamente no Vazio, não pode esconder para sempre a sua Dor. O vazio que existia na minha cabeça era maculado apenas por essa voz.

– Não preciso de alívio.

A dor da perda…

– EU NÃO QUERO!

A explosão veio acompanhada de imagens rápidas e sucessivas como um caleidoscópio: uma mulher de olhos verdes; a chuva; olhos verdes perdendo o brilho de reconhecimento…

As pessoas ao redor olharam assustadas quando gritei. Mas a Dor era imperativa, a dor da perda de um amor, a dor de saber que ela jamais saberá o que aconteceu, a dor de saber que era culpa minha. Lágrimas rolaram furiosamente em um choro sereno e silencioso. Depois de um tempo o choro parou e a dor se foi.

Mais uma vez fitei as luzes.

Um vento frio fez as pessoas ao seu redor estremecerem, mas nada sentiu, sabia a origem e o motivo. Havia um vazio nos meus olhos. Havia um vazio na minha mente. Havia um vazio no meu coração.

Prelúdio

Prelúdio

A primeira vez que a vi foi como um resplandecente desfraldar de asas de uma fênix. Por um momento, os pingos de chuva pairaram no ar como se fossem atraídos para aquele intenso olhar verde. Olhos verdes. Aquela magnífica íris destacava-se como uma folha brilhante em uma floresta de cinzas, ao passo de que parecia possuir a intensidade gravitacional de uma estrela.

Aquela pequena eternidade me fez pensar que meu propósito havia sido concluído. Sentir aquela intensidade verde me fez perceber como o mundo ao redor é cinzento. Como um farol de luz verde em meio às brumas.

Uma pequena parcela de mim queria tocá-la, outra queria que aquele momento estendesse indeterminadamente. A verdade é que o meu âmago abraçaria a morte de bom grado, ver seu rosto era uma ótima conclusão, afinal. No entanto, os deuses sabem o quanto tentei. O Caos viu o quanto lutei, assim como a Ordem. No fim, Destino conseguiu me capturar.

Se eu soubesse o que iria acontecer…

***

O céu era umas da poucas coisas que conseguia manter minha atenção. Aquela profusão de cores e luzes é fantástica. Ainda tenho dúvidas em definir qual era o mais belo: o esplendor do alvorecer em meio ao distante calor das estrelas, ou o derradeiro suspiro luminoso do crepúsculo. Ambos, entretanto, conseguiam imprimir matizes de cor nas nuvens, e era a beleza da mistura que mais me encantava.

Era como sentir diferentes texturas e gostos, algo só poderia ser captado pela fluidez de uma pulsação. Tão diáfano calor que se resumia a um órgão que trabalhava incessantemente para manter uma energia tão efêmera.

Assim eu resumia tudo: a existência efêmera de nossas vidas que busca notar a rotina infinita na mutabilidade da luz. Alcançar aquela centelha de luz era um objetivo que eu tinha em mente, e tal qual o coração, eu mantinha esse objetivo na tentativa de adiar o momento no qual a chama se apagaria, o momento que eu tinha certeza de que tudo é efêmero.

Ainda assim, só me sentia completo quando chovia. Era como se aquelas águas pudessem lavar toda sujeira e poeira da vida, avivando as cores e deixando-as translúcidas, iridescendo à medida que todas aquelas gotas escorriam pelas diversas superfícies. Eu quase podia acreditar que o mundo à minha volta não era desbotado, cinzento.

Gotas suaves que escorriam pela aquela face. Um farol verde em meio às brumas cinzentas me observava. Os cabelos ondulados colados no rosto dela escreviam augúrios com o sorriso malévolo do Destino…

Mais uma vez divago sem ter certeza se estou no passado ou futuro. Existir é tão mesquinho, às vezes.

Como pude perder tudo tão facilmente?