Um Diálogo Numa Tarde Agradável

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

– Algo me incomoda.

O quê?

– Outro dia vi um pássaro. No primeiro momento não vi nada de especial, mas ele saltava ao meu redor. Ele queria atenção. Então vi o sangue. Pingava de um toco onde deveria estar sua pata… Ele voou para longe.

A dor que ele sentia, foi isso que te incomodou?

Ela procurou o meu olhar, deliberadamente. Eu o desviei, intencionalmente. Senti seu desconforto e de repente aquele lindo campo onde estavam pareceu mais frio e pálido. Observei a curva suave de seu pescoço e a respiração controlada, a brisa inexistente que antecede a tormenta. O desfecho estava próximo, ambos sentíamos embora o incômodo não sugerisse isso. Era como a desarmonia numa corda desgastada, a pulsação fora do tempo de um coração falho, o fraquejar do mundo… Era tudo tão inevitável e inexorável.

            Fale, – incentivei.

            – Os eventos imploram para serem notados. Quando uma ínfima parte do Universo dá atenção, tal evento é esquecido ou perdido na mesma rapidez que se nota. É tão passageiro que temo estabelecer os níveis de comparação com o estado atual da criação. É a natureza da Ordem e do Caos? Tão… Inevitável e inexorável…

                – Na verdade, o que me incomoda é a apatia.

            Seu olhar foi firme, mas não havia foco.

Agora

Agora

Permita-se sentir alguma coisa. Meus olhos fitavam as luzes que passavam pela janela enquanto meu corpo descansava graciosamente no banco. Imóvel. Silencioso. Rígido.

Apenas uma lembrança. Havia uma urgência naquela voz.

Um arrependimento. Senti um solavanco, mas continuei impassível.

Uma saudade, um vazio dominava o brilho dos meus olhos. Por favor, sinta!

Uma alegria.

Uma Dor. O impacto deste último apelo foi visivelmente sutil, quase senti meus olhos entrando em foco. Entretanto, a lágrima que escorreu timidamente deixou um caminho perceptível levando o pouco brilho que aparecera neles.

– Eu não quero – minha resposta foi fraca, mas no fundo sabia que não conseguia sentir nada. A voz na minha mente insistiu:

Não pode viver eternamente no Vazio, não pode esconder para sempre a sua Dor. O vazio que existia na minha cabeça era maculado apenas por essa voz.

– Não preciso de alívio.

A dor da perda…

– EU NÃO QUERO!

A explosão veio acompanhada de imagens rápidas e sucessivas como um caleidoscópio: uma mulher de olhos verdes; a chuva; olhos verdes perdendo o brilho de reconhecimento…

As pessoas ao redor olharam assustadas quando gritei. Mas a Dor era imperativa, a dor da perda de um amor, a dor de saber que ela jamais saberá o que aconteceu, a dor de saber que era culpa minha. Lágrimas rolaram furiosamente em um choro sereno e silencioso. Depois de um tempo o choro parou e a dor se foi.

Mais uma vez fitei as luzes.

Um vento frio fez as pessoas ao seu redor estremecerem, mas nada sentiu, sabia a origem e o motivo. Havia um vazio nos meus olhos. Havia um vazio na minha mente. Havia um vazio no meu coração.