Olhos Verdes

fenixIlustração feita por Igor Uchôa

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Fonte dos Lamentos

Fonte dos Lamentos

Naquele momento de infinitude pude sentir a mortalidade dos segundos, tão efêmero e intenso… E então, num piscar de olhos, você se foi e me deixou só. Mas a luz verde que eram os seus olhos permaneceu, e ali, numa âncora perfeita, me prendi de volta à minha existência terrena, desta vez vivendo e não apenas existindo…

A chuva caía delicadamente; constante, mas gentil. Sentado naquele banco de madeira do parque observei a paisagem melancólica da tarde. A chuva lavava lentamente o cinza do olhar e o cinza da minha vista enquanto preguiçosos raios de sol conseguiam vencer as densas nuvens de chuva e iluminar o efeito cristalino das gotas nas árvores. O gotejar era incessante e parecia querer me embalar a um sono profundo, mas eu sabia muito bem que apenas pesadelos me aguardavam.

Tudo parecia tão bonito, tão calmo, tão relaxante.

Mas não é.

Minha mente estava agitada e aquela voz ao fundo repetia o mesmo discurso há anos. Eu quase podia sentir a sua respiração gélida em minha nuca toda vez que ela falava.

Lembre-se.

Não havia beleza, ou pelo menos eu não a enxergava mais.

Levantei-me e pus-me a andar, não havia rumo, nunca houve. Andei e brinquei distraidamente com a água das folhas até ouvir um som – parecia um lamento. Curioso, pus-me a procurar entre as árvores e a chuva pareceu ficar mais forte enquanto o som ficava cada vez mais abafado. Fiquei cada vez mais intrigado, era como se algo me instigasse, um dever, uma obrigação de encontrar a fonte; repentinamente senti uma mistura de inquietação e súbita aflição e passei a procurar freneticamente.

Ali.

            Por fim, cheguei a uma clareira bastante afastada da trilha, havia uma magnífica árvore no centro ao qual não reconheci de imediato. Minha atenção estava voltada à figura sentada entre as suas raízes.

Uma moça.

Ela era a fonte dos lamentos, tão verdade que uma poderosa angústia dominou meu ser, a mesma angústia nostálgica de uma presença ausente, de algo que deveria estar mas não estava, o Caos dentro da Ordem. Ah! Que tolice a minha: em um mundo naturalmente quebrado tentar questionar os erros da existência

Enquanto me repreendia ela percebeu a minha presença, seus lamentos cessaram instantaneamente assim como a chuva e ela levantou o olhar. Deuses! Aquelas íris pareciam devastar o mundo pela simples intensidade de ser. Por um átimo de segundo senti paz e nem mesmo aquele sussurro gélido podia ser ouvido.

Uma última lágrima rebelde escapou daqueles olhos cintilantes, percorrendo aquela pele macia, brincou no contorno gentil daqueles belos lábios e se perdeu na curva daquele queixo delicado. A mulher se ajeitou e sentou de maneira receptiva com um sorriso educado enquanto me lançava um olhar indagativo e cauteloso. Aproximei-me e sem pensar falei:

Estava procurando você.

– E eu estava te esperando. Por que demorou tanto?

Tive problemas no caminho.

– E como chegou aqui? – A conversa fluía naturalmente e eu respondi verdadeiramente:

– Cometendo erros.

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

Um Diálogo Numa Tarde Agradável

– Algo me incomoda.

O quê?

– Outro dia vi um pássaro. No primeiro momento não vi nada de especial, mas ele saltava ao meu redor. Ele queria atenção. Então vi o sangue. Pingava de um toco onde deveria estar sua pata… Ele voou para longe.

A dor que ele sentia, foi isso que te incomodou?

Ela procurou o meu olhar, deliberadamente. Eu o desviei, intencionalmente. Senti seu desconforto e de repente aquele lindo campo onde estavam pareceu mais frio e pálido. Observei a curva suave de seu pescoço e a respiração controlada, a brisa inexistente que antecede a tormenta. O desfecho estava próximo, ambos sentíamos embora o incômodo não sugerisse isso. Era como a desarmonia numa corda desgastada, a pulsação fora do tempo de um coração falho, o fraquejar do mundo… Era tudo tão inevitável e inexorável.

            Fale, – incentivei.

            – Os eventos imploram para serem notados. Quando uma ínfima parte do Universo dá atenção, tal evento é esquecido ou perdido na mesma rapidez que se nota. É tão passageiro que temo estabelecer os níveis de comparação com o estado atual da criação. É a natureza da Ordem e do Caos? Tão… Inevitável e inexorável…

                – Na verdade, o que me incomoda é a apatia.

            Seu olhar foi firme, mas não havia foco.