Quero Que Se Esqueça

Quero Que Se Esqueça

 

I

Quero que se lembre dessa dor,

Quero que se lembre dessa intensidade,

Quero que se lembre dessa mácula.

 

A mácula da santidade,

daquilo que todos adoram,

que todos exaltam

e que todos endeusam.

Que apotearam como sinal supremo

de redenção.

 

Aquilo vil,

maligno,

torturante.

A sangria final

A exalação terminal

A tortura imoral.

 

Amor

Ó, horror

Ah, dor

Quero que se lembre de amor

Quero que se lembre de maldição

Quero que se lembre de tentação.

 

 

II

o sal que escorre é aquele que arde

na ferida da alma que derrete a carne

florida e que abate a ressecada face

da mente pensante em bobo semblante

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O Escritor e a Lembrança

O Escritor e a Lembrança

O escritor terminou de digitar algumas palavras e afastou um pouco a cadeira para que pudesse ler tudo o que já fora escrito. Mecanicamente despejou no copo mais um pouco do uísque caro que ganhara na véspera, bebeu um gole, limpou o canto da boca, acendeu outro cigarro barato. A combinação estava horrível, mas era o que tinha para aquele dia. “Noite”, corrigiu-se ao olhar para a varanda. Às vezes perdia a noção do tempo ao submergir em seus escritos.

         A releitura o fez verter algumas lágrimas, talvez pelo cansaço, talvez pelo cigarro, talvez pelas lembranças. Não havia o que pudesse ser feito, contentava-se apenas em tentar amaciar a construção das frases. A Lembrança permanecia forte em sua cabeça.

         Próximo a ele uma forma feminina descansava preguiçosamente em uma rede. Seu sorriso enigmático não chegava aos olhos. Ela o observava com atenção embora ele parecesse querer ignorar sua existência. Ela se levantou, caminhou até o lado do escritor, apanhou alguns papéis na mesa e os leu em voz alta:

“– Estava procurando você.”

“– E eu estava te esperando. Por que demorou tanto?”

“– Tive problemas no caminho.”

“– E como chegou aqui?”

“– Cometendo erros.”

“– Ah, meu amor! Como ansiei por este momento.”

“– Não se preocupe querida, Caímos separados, juntos…”

O escritor não conseguiu disfarçar o arrepio, ela conseguia reproduzir perfeitamente as vozes em sua cabeça. Ela, percebendo isso, deu uma risadinha melodiosa e comentou baixinho junto ao seu ouvido:

– Você consegue deixar isso tão trágico… Gostaria que escrevesse algo sobre mim. Como você me descreveria?

Ele a encarou como se fosse a primeira vez, obviamente não era, mas sempre o fazia. Ele a achava linda, desde curva delicada do queixo, os lábios carnudos, a postura de uma rainha, até os olhos escuros e cegos que refletiam estrelas. Olhos de quem já presenciara o nascimento do Universo e o acompanharia até o seu definhar.

Naturalmente ele jamais verbalizaria isto, afinal, era apenas produto da sua imaginação, era o que repetia todas as manhãs. Ele levantou e fechou as janelas, a claridade do sol nascente o estava incomodando. Fingiu interesse no smartphone depois o largou na mesa, acendeu outro cigarro e voltou a escrever no caderno. Ela puxou o cigarro de sua boca e o jogou no cinzeiro, sentou no colo dele, tomou um gole da bebida e disse:

– Até quando vai fingir que não estou aqui? Por quanto tempo vai ignorar minha influência? Até onde vai o seu orgulho? Sua dor? Sua loucura?

Ele escutava de cabeça baixa quando tentou segurar a mão dela. Não conseguiu. Parecia estar tentando agarrar fumaça. Delicadamente ela ergueu a cabeça dele com as mãos até seus olhos se encontrarem.

– Consegue me ver? – Ela perguntou com um olhar de curiosidade, como se tentasse enxergar algo dentro dele. Parecia querer falar com outra pessoa.

Sim. – Respondeu ele depois de um tempo. – Eu a vejo e escuto.

A sombra da tristeza caiu sobre o rosto dela, agora sentada, próxima a ele, no chão com a cabeça encostada na parede.

Por que? – Ele pergunta. Sabe que ela entendeu.

– A Lembrança deles não pode se perder.

– E você, quem é?

– Lembrança. – Respondeu ela simplesmente.

Um momento de hesitação. A lâmpada da sala queima, entardece e o céu exibe uma miríade de tonalidades que vão do vermelho ao roxo escuro.

– Por que eu?

– Você já escreveu antes.

O escritor sentiu medo e frio. Era madrugada e o silencio cortante acompanhava o diálogo.

– Eu posso mostrar.

E era isso o que ele temia. Lembrança se aproximou e envolveu a cabeça dele nos seus braços.

– Apenas um vislumbre.

Uma explosão de imagens toma conta da mente dele: um homem de aparência orgulhosa marcha com um exército para a morte certa; uma mulher trajada de vestes douradas caindo de joelhos diante de uma cidade em ruínas; um ser enlouquecido em meio às chamas; luzes e escuridão dançam ao seu redor enquanto um clarão se aproxima…

Lembrança afastou os braços da cabeça do escritor e ele a agarra em um abraço apertado. Surpresa, ela afaga seus cabelos enquanto ele chora silenciosamente. Lágrimas eram algo que ela não poderia produzir, naquele momento era tudo o que mais queria.

– Um Rei, uma Grã-Sacerdotisa, um Cósmico, seja lá o que for, uma vez você já foi chamado de Kr…

O toque da chamada interrompeu a frase dela. Ele secou as lágrimas, atendeu, disfarçou a voz, e desligou. Já estava outra vez revisando o texto. Salvou uma cópia e a enviou a outras pessoas. Olhou para a varanda e percebeu que era manhã outra vez, se preparou para sair de casa a fim de manter seus compromissos. Viu que a mulher estava outra vez na rede, mas ele sabia que ela o acompanharia para onde quer que ele fosse. Sempre fora assim.